O NAHUAL
Son quase as
doze da noite. Vicente cojea,
arrastando uma perna. Exaspera-se ao
ouvir como o estrondo bombardeia o
espaço e suas ondas o multiplicam em
reverberações sucessivas. O fragor
das luzes estroboscópicas lhe
aturde, lhe cega. Tropeça. Sente uma
dor súbita no joelho direita. “¡É o
menisco!”, amaldiçoa. Recosta sua
anatomia sobre uma coluna e tenta
recompor-se. Intranqüilo e sudoroso
observa aos turistas dançar ritmos
estranhos, colando saltos, com
convulsões e chacoalhadas, possuídos
por uma histeria desenfreada e
alheia a seu mundo de pescador calmo
e solitário.
Vicente se empecina e segue.
Escorre-se a duras penas entre os
parroquianos, entre homens jovens
que se estrujan uns a outros,
enfundados em modernas jaquetas de
couro negro. No obstinado recinto, o
ar defumado sufoca os gritos de
mulheres eufóricas que se lhe lançam
jadeantes, enlouquecidas por
substâncias que Vicente desconhece.
Lhe halan. As rejeita. Escapa. Só
procura uma mulher, a sua. Uma
feiticeira lhe disse que teria de
achar a Laura por trás do bar, baba
em boca, com mirada de cachorro
perdido, fria, o pulso débil e a
pele manchada e áspera.
Por trás do bar não há outra coisa
que mugre, cerveja podre, restos de
alimentos e garrafas rompidas. Tenta
meter a cabeça sob o balcão e um
hombrote de segurança lhe dá um
jalón pelo ombro, atira-o do
cotovelo, empurra-o e o tomba de
joelhos sobre o andar. Esta vez a
dor do menisco é inaguantable. Rosa,
uma garçonete de muitos anos que
fala com o deixo maia da gente de
Yucatán , intervém e impede o pior.
Ela lhe ajuda a arrastar-se a um
pequeno quarto contíguo e lhe joga
sobre um cadeirão azul, sentando-se
a seu lado. “Pareces estar fora de
lugar Quem és tu e daí procuras
aqui?” lhe perguntou Rosa mal
recobrou o alento. “Procuro a Laura,
minha mulher.”
Laura parecia uma sereia fora do
água quando Vicente a encontrou em
Cayo Arenas, uma noite de lua.
“Quero que me leves em tua barca,
pescador” lhe disse sem olhá-lo.
“Quero que me leves a esse cayo de
dunas que se vê lá ao longe. “
Bordearon o Recife dos Alacranes,
canais, rochas e manglares. Ela se
jogou nua ao água num banco de
corais e não voltou à superfície até
três horas depois, ébria de lua e
sal. Subiu à barca com um rouba-o
grande e assim nua se jogou a dormir
sobre a proa. Vicente a carregou em
seus braços e em sua choupana a
tendeu sobre uma rede de redes. À
manhã seguinte racharam o pescado em
dois e o assaram sobre as brasas com
yerbas frescas.
Mais ou menos o mesmo continuou
ocorrendo cada lua, durante todo
aquele verão. Aparecia a meia-noite,
os dois vogavam por uma hora e logo
ela se zambullía, perdendo-se entre
algas e corais e não resurgia senão
até que o sol tocava as primeiras
nuvens. durante o dia a choupana de
Vicente não se abria e nada nem
ninguém entrava nem saía dela, salvo
o rumor marinho. O amor era seu pão
e sua alegria. Amor que crescia e
minguava como a maré segundo fossem
nos dias de lua, porque ao decrescer
a lua Laura desaparecia ao alva sem
dizer adeus enquanto Vicente dormia
os sonhos do amor. Seu nome e sua
maneira de amar eram tudo o que
sabia dela.
Ao final do verão Laura não voltou
mais. E assim foi como começaram as
tribulaciones de Vicente, quem a
procurou cayo por cayo, manglar por
manglar , berço por berço. “Isto não
pode ter sido uma ilusão. Eu tenho
que a encontrar”, dizia-se. Uma
manhã, nessas buscas, Vicente se
enterrou num banco de areia
magoando-se de maus modos seu joelho
direita e aumentando sua angústia.
Ao final da tarde e nas noites ia
aos bares do porto e neles apressava
um trago de tequila ou de mezcal.
Assim, aturdido de tequila e sol,
encontrou-o num bar uma tarde a
feiticeira de Uxmal. “Vêem a ver-me
às dez ” lhe disse, “Eu sê o que
procuras.” Era um quarto estreito e
escuro que cheirava a sahumerios de
incenso e de copal. “Há uma mulher
em tua vida.” sussurrou ela
tomando-lhe suas mãos e olhando-lhe
fixamente aos olhos “Mas não te
convém. Não te convém. Tens que me
ouvir. Tens que me ouvir.” Repetia.
“Se queres esquecê-la tens que tomar
hoje mesmo, aqui, antes da
meia-noite um banho de urtigas,
retama e sal.” “Quero encontrá-la.”
“Não te convém. Não te convém.”
Repetia. “Mas se és forte, então
entra ao Bar da Iguana a meia-noite
e a encontrarás por trás do balcão,
baba em boca, com mirada de cachorro
perdido, fria, o pulso débil e a
pele manchada e áspera.”
Rosa ouviu a história de Vicente com
uma mistura de medo, assombro e
dúvida. Deu-lhe um trago de pulque,
ajudou-o a incorporar-se e o
conduziu de novo ao ruidoso salão e
ao bar para mostrar-lhe o único ser
que tinha no mugriento andar, por
trás do balcão. Atada com correntes
a uma viga, entre garrafas rompidas
e restos de pescado, estava uma
iguana verde, baba em boca, olhada
de cachorro perdido, fria, o pulso
débil e a pele manchada e áspera.
“Se chama precisamente Laura”, disse
Rosa.
FERNANDO UREÑA RIB
MÉXICO, DF. 24 DE
SETEMBRO DO 2003.