Ainda não se secaram bem as
formosas pinturas daquela coleção denominada Oceânica,
que seu autor pendurou nas paredes da velha Casa do
Cordão para uma das grandes noites de festa artística do
país, nem se dissiparam na memória as palavras que ali
se disseram para celebrá-las, quando já temos uma nova e
responsável coleção, esta vez denominada Ninfas pela
graça dos deuses e de si mesmas. E pela de seu autor,
nosso ecumênico (Oslo, Siena, Québec) Fernando Ureña
Rib.
Porque este artista, aparte de viandante e competente, é
um produtor incansável de objetos de beleza.
E daí a beleza.
Aqui Zeus, o deus dos deuses, tão aficionado a este
tipo de belezas, multiplicaria uma, ou de um só golpe
muitas, de suas milagrosas transformações. Não só pelas
convincentes razões que lhe induziram a converter-se em
“cisne” (o de Leda), ou em “touro” (o de Europa) ou
nesta rutilante “chuva de ouro (desde então a mais
convincente e atual das transformações galantes) que lhe
permitiu entrar na alcova de Danae .
Sino também por aqueles atributos que Ureña Rib como
Rubens, o de “As três graças”, outorgou-lhes: A graça na
autenticidade de seus movimentos. Na transparência do
colorido como de aquarela. Na soltura da linha melódica
como de violinos. E nas modulações rítmicas de seus
corpos danzantes, e efetivamente danzarios, que
materializam em termos de cor e movimento uma visão
nova, moderna (porque a de Rubens é a do século XVII) da
beleza corporal.
E sobretudo, pela modernidade de seu comportamento
artístico.
E aqui voltamos no ponto em nos deixou a coleção
denominada Oceânica: o ponto da modernidade na obra de
Ureña Rib.
Porque agora o maestro dá um passo de avanço mais firme
para o século XXI, o da ruptura total e completa com o
“linguagem falada”, ou discursivo, que lá pelos anos
sessenta tinha decretado “a morte da Estética” a mãos
dos linguistas (estructuralistas) e dez anos depois a
“morte da arte” a mãos dos próprios artistas (o
manifesto da arte conceitual ) em 1970.
De modo que esta é uma antecipação certamente
vertiginosa, porque entronca na presente encruzilhada
histórica, com esse delírio da “globalização” da
comunicação humana que impregna, sem socialismo e sem
teoria sobre o futuro imediato (mas com Internet) não a
consciência senão o comportamento plenamente humano do
homem moderno.
En realidade se trata do desenlace do processo da
comunicação humana em seu conjunto e só da comunicação
artística, involuntariamente advertida e utilizada por
Kandinsky em sua famosa teorização da pintura abstrata
(O Espiritual na Arte) a princípios deste agônico século
XX. Em 1925, numa obra posterior como nos o conta
Herbert Read, dizia o mesmo Kandinsky que “A arte
moderna só pode nascer onde os signos se convertem em
símbolos ” E assim foi
El arte “moderno” ou seja a “pintura abstrata” nasceu
ali onde os símbolos (com a ajuda de Freud) devoravam
alegremente os signos. Mas Kandinsky, a quem há que lhe
reconhecer o ter avizorado precocemente a “Teoria da
Informação” de Shannon e Weber (que eventualmente
desencadeou na informática e em última instância no
Internet) reduzia suas formas superiores (o signo, o
símbolo e a obra de arte) , a uma só delas: o símbolo.
Por sua vez a lingüística estructuralista também reduzia
essas três formas a só uma: o signo. E claro, a
conseqüência seria a morte da Estética por um lado e a
morte da arte pelo outro.
A fortunadamente num dia também teria que morrer essa
modernidade. Morreriam o estructuralismo e o fanatismo
do discurso, bem como também o abstraccionismo com sua
condenação fanática da figuração. E, obviamente a
modernidade artística que deverá reivindicar no século
XXI não poderia ser outra que a da emancipação da obra
de arte por meio da ruptura cabal e completa com a
comunicação lingüística o signo e com a comunicação
simbólica, o símbolo.
E assim desembocamos na última mostra de Fernando Ureña
Rib. Já não ficam nela as traças sígnicas ou simbólicas
que contaminavam a arte moderna. Só fica, fulgurante, a
obra de arte em sua mais prístina e autêntica pureza. No
entanto, há que fazer um signalamento inevitável porque
bem pode sustentar-se, agora que estamos no centro da
ruptura de Ureña Rib com o passado abstrato, que a
beleza esteve muito longe de ser a dominante da pintura
(ainda que si da Estética) do século XX.
Pocos daqueles artistas, Kandinsky e seu grupo, quiçá
colocaram a beleza num lugar amoroso de suas composições
pictóricas. Mas em sua maioria os outros romperam
abertamente com a beleza. Mas em sua maioria os outros
romperam abertamente com a beleza. E não só Picasso, que
sempre foi cruel com a figura feminina (e que dito seja
de passagem, nem sequer em sua época cubista abandonou a
figuração).
E tenho aqui que Ureña Rib, ao mesmo tempo que rompe com
o signo e o símbolo, o que significa romper com o
abstracionismo em seu conjunto e com toda a cháchara
antiestética e antiartística que arrastava consigo,
reivindica a beleza. Pareceria uma contradição se não
uma maldição.
Pero não há nada disso. Ureña Rib reivindica a beleza
como realidade sensível, e até sensual. Não conceitual.
Vale-se dela como recurso artístico de primeira casta,
da mesma maneira que os egípcios se valiam da fumaça
como recurso lingüístico de primeira casta para
comunicar as crescentes do Nilo, ou os monges medievais
se serviam do vinho como um recurso simbólico de
primeira casta para evocar a presença de Cristo na
Eucaristía.
Porque nem a comunicação humana em seu conjunto, nem a
prática artística nem a teoria estética, poderiam
prescindir jamais da beleza (nem de nenhum outro aspecto
sensível da realidade) como recurso comunicativo de
primeira casta. Mas sim do conceito de beleza como
essência da arte.
E, precisamente.
En esta obra, e em definitiva em toda a obra de Ureña
Rib, a beleza parece ser uma Tonica dominante. Em todo
seu esplendor e sua pureza. As vezes, literalmente, em
toda sua nudez.
Iso devemos agradecer-lhe.
E também a ruptura com o signo e com o símbolo, a
reserva de que se guarde de romper com as outras formas
da comunicação humana, ao abandonar os prédios da arte.
Pedro Mir. Poeta Nacional. Santo Domingo
LITERATURA DOMINICANA
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Pedro Mir
poeta da República
Dominicana, considerado porta-voz do
sofrimento de seu país, morreu na
terça-feira 11, aos 87 anos, vítima de
enfisema pulmonar.
Filho de um mecânico cubano, Mir nasceu em
San Pedro de Macoris em 1913. O retrato
social que o cercou acabou sendo fundamental
no desenvolvimento de sua poesia, recheada
de críticas sociais. Depois de passar quase
uma década em Cuba e na extinta União
Soviética, Mir voltou ao seu país em 1962
para fundar uma espécie de comunidade
intelectual socialista. Por seu trabalho,
recebeu o Prêmio Nacional de História
Dominicana, em 1975. Em 1982, foi eleito
poeta nacional e, em 1993, recebeu a
condecoração máxima de sua carreira, o
Prêmio Nacional de Literatura.
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