"Maromas tão tristes"
Matsuo Bascho
Nou me o crerás, mas faz algumas noites tive
um inesperado encontro com uma mulher que quase me deslumbra pelo
sagaz de sua percepção. A Puta de Perpignam , fez-se chamar, ainda
que em princípio não o parecia. Era uma mulher miúda e cinza, de
boca grande e vermelha que me recordava aquela de Toulouse de chapéu
e plumagem, que pintasse uma vez o maestro Lautrec. Quando a ouvi
falar, ébria e irônica, soube que em mais de um sentido "de sua boca
se poderiam fazer duas,"como dissesse Pablo Neruda de sua amada
Matilde.
Bom, espera, não é quizás o que pensas. Encontrei-a muito
deteriorada, num restaurante português, a prima noite do domingo: Eu
tinha ido parar a Perpignan por um desses jogos conspícuos que o
destino ou a imprevisión as vezes nos impõem: o trem me habia
abandonado a isso das oito sem um franco, naquela estação inóspita.
Supunha-se que fosse a Paris em meu caminho desde Barcelona, onde
nos dias anteriores à Noite de San Juan , tinha passado eu uns dias
memoráveis, a minhas largas, tomando canas desde o meio dia e
provando aqui e lá as delícias da culinária espanhola no laberíntico
bairro gótico. Nas noites me aventurava pelos almenares do bárrio
árabe, ou bem saía a tomar ar fresco deambulando pelos bares que
enfeitam os atracaderos do porto. As noites as concluía no Hotel
Santa Marta depois de umas fulminantes copas de orujo.
Mas a razão de meu inesperado alto em Perpignan é que o controlador
do trem me exigiu que lhe pagasse em moeda francesa o custo das
liteiras. Não levava um franco, disse-te, assim que me vi forçado a
abandonar aquele trem e procurar mudança na casinha da estação , que
como era de esperar-se estava fechada a noite de domingo. Vagando
pelos arredores me encontrei com um casal de amigos que vivem em
minha cidade e a quem fazia anos que não via. Contaram-me que lhes
tinha tocado a eles similar destino. Não tinha mais remedeio do que
retomar a rota no incômodo trem das três da madrugada, que não
exigia já o pagamento das liteiras O que nos encontrássemos sem
aviso, a três mil quilômetros de distância, numa pequena cidade do
sul de França era só um dos elos dessa corrente de peripécias
inesperadas que te relatarei:
No restaurante português meus amigos e eu ordenamos lapin e vinho.
Desde uma mesa vizinha a madame nos ouvia celebrar o fortuito do
encontro e se acercou à nossa com sua garrafa de vinho "Meu trem me
deixou faz muitos anos" nos disse e halando uma cadeira adicionou:
"Ouvi o que conversavam. Importa-lhes se me sento com vocês?" Antes
de esperar a resposta já estava sentada conosco vertendo vinho em
sua copa. "A única diferença é que meu trem vinha de Paris. Eu tinha
só vinte anos e um amor que se foi para sempre nesse mesmo trem, e
me deixou varada aí, sem um cêntimo, na plataforma ao que vocês
baixaram. O resto da história ficou escrito em minha pele.
Passearam-se todos por minhas mãos: generais, señoritos, vagabundos.
Todos vinham a mim a tirar-se a sede ou o frio. Alguns regressavam
de quando em vez. Sob meus cobertores não tinham raça nem casta, não
tinha idioma nem fé. TEVE-OS altos e anões, gordos, fornidos,
extravagantes, ateus, puristas, religiosos, ricos, néscios,
arrogantes. Nada mais fazia vê-los e sabia de onde vinham, a que iam
e qual era o nome de sua dor ou de seu medo. Sê o que trazem nas
malas, o que escondem embaixo do casaco. Basta-me olhá-los e o
descubro ao vôo. Entre os homens conheço ao triunfador e ao
derrotado, sê quem é mesquinhos e quem generoso. Crede-me que este
lenço secou muitas lágrimas e espantou muitas moscas."
E o amor, não voltou a entrar em sua cama, Senhora ? –lhe perguntei
curioso.
Não me chames Senhora, por favor, me sentiria xingada. Meu trabalho
não é tão fácil como o delas, quem nem se imaginam a forçada
intimidade com um homem estranho, de quem ignoras seu nome, sua
história e seu idioma, mas não seus desejos. Que são sempre os
mesmos.
Neste ponto, a esposa de meu amigo começou a sentir-se molesta e se
tivesse marchado a não ser porque a Madame a tranqüilizou alçando a
copa com um sorriso e um amigável gesto de cumplicidade
Quiçá possa você chamar-lhe amor. Dessas coisas uma nunca está
segura. Só sei que no meio do fastio, do vendaval de carícias
apressadas que ofereci como alívio ao passageiro, me consuela ver
dois ou três vezes ao mês, o rosto de Silvano. Ainda vem a meu, azul
e uniformado. Sua camisa já não cheira ao hollín dos trens de
antanho, mas ao igual que a mim, se lhe nota na testa e nas mãos, o
cansaço das noites de insônia. Unem-nos, mais do que o amor, a
solidão e a esperança. Conheço de cor seus itinerários, assim que
lhe vejo passar rapidamente, como o verão destas praias e agito este
lenço no que ele tantas vezes chorou. Meu velho controlador
ferroviário prometeu que se retirará comigo a seu sótão, desde a que
se divisa o bairro gótico de Barcelona. Quiçá possa você chamar-lhe
amor, porque o amor vive sobretudo de promessas, de futuro.
As horas se nos foram de pressa, escutando aquela mulher e seus
episódios de homens calvos, acróbatas e palhaços de circo. "Maromas
tão tristes" pensei recordando o Haiku do velho Basho. Pouco antes
das três ouvimos nosso trem apitar na distância. Entramos a um
compartimento sem liteiras e o vinho e as histórias nos fizeram
dormir profundamente. Já passado Lyon, e a isso das sete acordou-nos
o controlador em sua rotina, perfurando os bilhetes. Era um senhor
alto, de testa despejada, mãos huesudas e alongadas. Não vai-lo
crer, se te digo que na lapela de seu uniforme, sobre o distintivo,
atingimos a ler em silêncio: Silvano López, Agente Ferroviário.
FERNANDO UREÑA RIB