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NARRATIVA DOMINICANA

 

FÁBULAS URBANAS

A SOLUÇÃO NO UMBIGO
 

FERNANDO UREÑA RIB

 

 

 

 

A SOLUÇÃO NO UMBIGO



Me custou anos de investigação cuidadosa, agitadas noites de insônia, além de cair numa emaranhada de incompreensões e vicisitudes. Os livros de medicina guardavam hermético silêncio. Os místicos se tinham ido demasiado longe e se diluíam em extensas meditações. Foi numa dessas meditações que fiquei absorto contemplando meu umbigo. Um simples caderno em espiral investida, com um escuro ponto interior que subia, baixava e se desdobrava com lenta e deliciosa mobilidade. Meus olhos estavam atenciosos contemplando a oscilação e quase instantaneamente fiquei hipnotizado, transportado aos ditosos dias de minha vida uterina. Todo o recebia então pelo cordão umbilical: O amor, o afeto, o alimento. Era por esse ouvido alongado que percebia ritmos, latidos, pulsações. Perguntava-me agora por que aquelas funções teriam de concluir abruptamente. Por que tínhamos reduzido o umbigo a simples cosedura, a recordação inenarrable do tempo em que ninguém nos conhecia, quando ainda não tínhamos nome nem sobrenome; a símbolo que não podes apagar com um simples estropajo balnear.

É verdadeiro que o umbigo tem subyugado eroticamente a média humanidade que encontrou nele, o rincão maternal onde acurrucar um beijo. Mas aparte dessas intimidades o umbigo foi inexplicavelmente ocultado, suprimido. Quando se lhe exhibe um diamante, um disse ou uma ajorca o reduzem a um vergonhoso segundo plano. E para que falar de correias, tatuagens, bandas, faixas, corpetes e ligaduras. Concluí que o amordazamiento do umbigo não só obstaculiza seu potencial biológico, senão seus dotes comunicativas, sua capacidade estetoscópica. Bem visto o umbigo é um ouvido investido, emissor e receptor de ondas do que se esqueceram miseravelmente espiãs, agentes de segurança e japoneses.

Chegado a esta conclusão começou meu labor. Confusas equações, operações matemáticas e físicas complexas não conseguiram despistar-me. Abri consulta e decidi fazer investigação sobre o terreno. Cedo me achei imerso num labor de auscultação que ia desde a mirada discreta e longínqua até estudos microscópicos que me faziam sentir como o arqueólogo que desenterra uma cidade antiga. Media e anotava os resultados micra por micra, milímetro por milímetro.

O que surpreende de imediato ao estudioso do umbigo é sua diversidade. Não há dois umbigos iguais. Conquanto todos sabem que o umbigo não é criação divina, poucos consertaram em sua inegável humanidade; não só porque se trata de lide de parteiros, senão porque nem aves nem peixes nem serpente têm umbigos. Cachorros, gatos e cabras se os têm sabem ocultá-los muito bem. Não faz falta molestar-se procurando-o em batracios, arácnidos e insetos. Suspeitava com modéstia que não seria eu nem o primeiro nem o único em descobrir as innúmeras propriedades do umbigo. De maneira que fui dar aos livros.

Era coisa de ver a filosofia, a história, a arte, a moda e a psicologia através do umbigo. Não vou cansar-lhes agora com minhas extensas notas, mas lhes adianto que não poucas filosofias partem da contemplação do umbigo. Senhor Buda, perdoe você. Se disse antes que não há dois umbigos iguais me parece justo apontar aqui que não existe também não ninguém com dois, três ou quatro umbigo. Não estaria completo este relatório se não assinalasse de imediato sua localização: É o centro anatômico da figura humana, como bem o determinou Leonardo da Vinci em seus desenhos, para benefício de obstetras e parteiras que bem pudessem equivocar-se amarrando e cortando outra tripita.
 

FERNANDO URENA RIB

 
 

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